Matte Leao Rio de Janeiro

Capitães da Areia: Bartô

Bartolomeu, mas pode chamar de Bartô.

Por: Gabriel Cassar 

O apelido é carinhoso e faz jus a quem se designa. São 15 anos de trabalho na praia de Ipanema, vendendo biscoito Globo (o mais fresquinho da região) e bebidas diversas, como mate, refrigerante e Guaraviton. E podem tirar o olho do Guaraplus: o Bartô só compra ele para mim. Uma pechincha: 80 centavos na Central do Brasil.

Perto do mar, nas areias quentes da Garcia D’ávila, procuro Bartô. Costumo ser fiel consumidor. Normalmente, vejo o ambulante de longe, mas, hoje, está realmente complicado. Minha mãe também mostra certa dificuldade em encontrá-lo. Seria ele ali? Não, não pode ser: está muito magro! Bartolomeu não tem esse corpo, não pode s… É ele! É ele mesmo! Acenamos com a mão.

O ritmo mostra-se mais lento que o habitual. Percebemos que a mudança de fisionomia de Bartô não deve ter sido em função de alguma dieta. Não foi livre arbitrária, digamos assim.

– Oi, Gabriel! Oi, minha senhora! Eu não apareço há um tempo, mas vocês também estão sumidos, hein.

Rimos um pouco e esperamos que ele começasse a nos dizer o que diabos havia acontecido.

– Ah, vocês não souberam? Tive uma pneumonia. Coisa muito séria. Quase que eu “fui embora”. Mas, graças a Deus, o pessoal me ajudou e tudo correu bem.

Esse “ajudou” foi bem enigmático. Pedi para que Bartô, caso não fosse incômodo, se aprofundasse mais em sua desventura patológica.

Matte Leao Rio de Janeiro
Foto: Ale Garattoni

– Na verdade, eu estava era com dores musculares. Aí, fui na UPA de Botafogo e a médica me passou um remédio. Clari, Clavi… Bom, não sei. Alguma coisa assim. Fui tomando, tomando e nada. Em vez de melhorar, comecei a piorar. Piorar muito, a ponto de não conseguir nem levantar da cama. Meus filhos e minha esposa ficaram desesperados. Eles resolveram me levar num outro médico, particular, independente da grana que teriam que desembolsar depois. Chegando lá, a surpresa: o doutor me disse que, se eu continuasse e ingerir as pílulas que a outra médica tinha me passado, bateria as botas em algumas semanas. Vê se pode! Ia morrer por causa de erro médico. Que desgraça.

Estupefato, escutava as palavras de Bartô. A gente nunca espera que essas pessoas de bom coração, que conseguem mudar o humor de qualquer um com seus excessos de simpatia, possam sofrer com descuidos mundanos. A parte da ajuda foi logo desvendada.

– Bom, como nem eu e nem minha família tínhamos dinheiro para pagar os remédios que o novo doutor passou, começamos a receber ajuda do pessoal aqui da praia. Coisa muito boa mesmo, sabe? Os outros vendedores fizeram caixinha e, sempre que perguntavam a eles onde estava o Bartô, eles já faziam campanha para os clientes me ajudarem. Minha maior doação foi de minha madrinha. Ela é muito boa para mim. Me deu mais de quatro mil reais, acredita? Essa aí, se eu sumo por alguns dias da praia, já me liga, manda mensagem no celular, Whatsapp… Uma figura.

Minha cara de apreensão foi mudando para um sorriso natural. Meus dentes iam aparecendo aos poucos e uma deliciosa sensação ia me consumindo. Bartô contava os detalhes de sua quase morte com uma desenvoltura icônica, fazendo graça, gesticulando, rindo e se lamentando. O fato de vê-lo ali, mesmo com trinta (TRINTA!) quilos a menos, já me despertava alegria: o final da história era feliz e a prova estava bem na minha frente.

Foto: @michelsabbaga, via Instagram


Minha mãe questionou o tão pronto retorno do vendedor aos trabalhos. Ele sorriu e disse que vida de pobre é assim mesmo: não tem tempo para ficar doente. Sua cortesia contumaz não tardou a aparecer: como de costume, ofereceu alguns biscoitos e bebidas, todas por conta da casa. Não aceitamos, pagamos um pouco acima do valor e deixamos bem claro: qualquer ajuda que precisasse, poderia falar conosco.

Antes de ir embora, perguntei a Bartô como as pessoas souberam de sua pneumonia. Ele sorriu.

– São 15 anos trabalhando nesta praia, 15 anos em Ipanema. A gente faz amigos, né. Os banhistas, vendedores de quiosques, seguranças da rua, outros mateiros… Eles perguntavam “Cadê o Bartô!?” e, quando ouviam a resposta, se disponibilizavam de pronto a me ajudar. Coisa muito bonita, sabe? O Russo (vendedor de mate, famoso por seus monólogos em voz alta e pelas feições um tanto quanto loucas) fez a coleta geral.

Senti que era hora de cessar o interrogatório e deixar o Bartolomeu voltar ao trabalho. São três filhos para sustentar e alguns bons quilos para engordar. Deixei meu telefone com ele, caso alguma nova emergência emergisse. Bartô se despediu e mandou lembranças a minha irmã, que se ausentava por motivos de trabalho. Tricolor como a gente, desejou boa sorte ao Fluminense no confronto que estava por vir no dia seguinte. Dei um último sorriso e Bartô partiu, com o saco cheio de biscoito Globo e o pesado isopor de bebidas repousando sobre o ombro direito.

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Sobre o autor:

Gabriel Cassar é escritor e publica algumas de suas crônicas, contos e poesias em sua página do Facebook e no Instagram.

Blog especializado em conteúdo sobre o Rio de Janeiro, com dicas tanto para turistas quanto para moradores.
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