Crítica do filme “O Cidadão Ilustre”: nem só de Darín vive o cinema argentino

Crítica “o Cidadão Ilustre”: nem só de Darín vive o cinema argentino
O Cidadão Ilustre conta a história de Daniel Mantovani, um premiadíssimo escritor que decide voltar pela primeira vez em 40 anos a sua pacata cidade natal Salas, a 6 horas de Buenos Aires, Argentina, para receber homenagens.
 

O filme acerta ao conseguir desenrolar sua trama com leveza e humor, sem deixar de abordar questões relevantes ao universo da literatura. Apesar da construção do personagem de Daniel não ser das mais originais – aquele clichê do escritor de meia idade, solitário e arrogante -, algumas sutilezas mais interessantes da sua personalidade acabam aparecendo, como na sua atenção com o recepcionista do hotel. Pra mim, demonstra toda a força e a beleza das relações desinteressadas. 

Se por um lado as cidades pequenas podem ser pouco inspiradoras em termos de fotografia, para a narrativa concordo com Daniel que são ótimos temas, até mesmo por reproduzirem de maneira crua o que temos de pior na natureza humana. Ainda assim, me surpreendi que mesmo depois de tanto tempo ele continue escrevendo todas as suas histórias sobre Salas.  Esse detalhe abre uma brecha para se pensar que talvez a sua relação com o passado não seja tão bem resolvida quanto tenta convencer.

O filme todo é um exagero, e pode confundir quem tenha o hábito de interpretar tudo literalmente. A narrativa a la Dom Casmurro deixa no ar perguntas sobre as fronteiras entre a realidade e a ficção na obra literária, mas principalmente essa: por que diabos isso é tão importante?

Recomendo o filme para escritores, aspirantes ou simplesmente para todos os admiradores de bom cinema. 

 

TEORIAS SOBRE O FINAL (com spoilers, obviamente)


Como eu falei na crítica, o filme brinca o tempo todo com as fronteiras entre realidade X ficção, e porque nós temos essa mania incessante de querer sempre saber qual parte é real ou não. Mas eu não fujo à regra, e esse tipo de pergunta acaba passando pela minha cabeça também.

No caso desse filme, estou convencida de que senão tudo, pelo menos a cena em que ele entra na picape do “amigo de infância” e as seguintes são completamente fantasiosas. Primeiro que a não ser que ele fosse suicida, ele nunca entraria em um carro com o namorado e o pai da garota que ele transou, ambos caçadores de animais assumidos. Segundo que a cena da estrada à noite vai mostrando uma a uma todas as pessoas de Salas que passaram a ter raiva dele ao longo do filme, demonstrando mais uma vez que aquilo não era real.  E terceiro que se ele tivesse sido mesmo atingido por um tiro naquelas condições, 99% certo de que não poderia sobreviver para contar a história. 

Tá, mas qual a teoria? Então, lembra que no início quando o carro quebra na estrada, ele conta uma história pro motorista, à meia-luz da fogueira? A história incluía justamente um assassinato no meio do nada e o irmão gêmeo barbudo tirando a barba para poder substituir o irmão sem barba. E não é que na última cena ele reaparece sem barba, como ele estava somente no início (na cena do Prêmio Nobel)?  Calma, não tô dizendo que ele tem um irmão gêmeo do mal não, hahaha. Mas pra mim esse pode ser um sinal discreto de que todo esse período entre o início e o final é só o que precisa ser: uma boa história.

 

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